[Poemas tirados de notícias de jornal] a menina distorcida

suspensa, navega pelo ar

rarefeito,

flutua por nuvens de pensamento

 

desnuda, refletida no velho espelho

translúcida,

analisa a silhueta na penumbra

 

toca-se para sentir-se

dor no peito

 

corta

 

mãos que manejam a sombra

olhos que alcançam além

 

chora

 

imagem de si mesma, fantasma

auto relevo de ossos

pele papel enrugado

 

vomita

 

dentro de si

nada além

do enorme vazio

 

o ritual da menina invisível

diário, sedento

o animal a consome de dentro

sem que acorde a tempo

de ver que existe a outra imagem

e não seria uma miragem

a menina distorcida

via-se presa num corpo

que não lhe pertencia

corpo fabricado

plastificado

rasgado

dilacerado

digno de capa de revista

 

a aprendiz

a aprendiz

 

dedos finos sujos de tinteiro

guimbas espalhadas pelos recantos

o rosto fúnebre brota histórias

que imagem! que vislumbre!

 

pairo pelo ar que respiras

oculto-me e me faço presente

lugar ermo, castelo de solidão

partículas epifânicas a circundam

aflição

 

atmosfera sedenta

mãos trêmulas apontam e despontam

na mente transborda turbilhão

palavras imagens personagens

inferior jamais, auto expressão

 

desbotada ela desvanece

cena roteirizada do livro que não escreveu

ainda presa, quase explosão

flutua a primeira frase, o primeiro nome

caneta e papel em mãos

 

o nariz em gancho

aspira a leveza e o cheiro do mundo

com toda a imensidão

da simplicidade de flores primaveris

colisão

 

o encontro do real ao imaginário

rasga seu corpo em dez

resignação

a primeira frase

o primeiro pedaço em minhas mãos.

[Poemas tirados de notícias de jornal] Colcha de retalhos

Com retalhos, a colcha costurava memórias. Imagens coladas de um passado ainda pulsante. Era senhora de si, mesmo sem entender o que significava. Senhora, olhava-se no espelho e via um rosto marcado, demarcado. Desconhecido. Buscava nos pedaços de lembranças na imaginação agora pouco fértil, o terreno irrigado com amores pretéritos. Na agulha, no caminho traçado, a viagem seguiu dos 80 aos 8. Dos corações partidos, a flecha cravada na madeira, presa a foto que nunca tiraria. A incessante incerteza, a dúvida. De vazio não viveu. Não foi escolhida. Como boi em rodeio, fora alçada. Como gado, abatida. Pertencia a um dono. A senhora de si era de outrem, não existia. Uma névoa no amanhecer do campo, quase invisível, gelada, cortante. Na montagem dos retalhos, vidas geradas, sobrevidas, vidas enterradas, vida que seguia. A cada nascimento, uma esperança. A cada choro engasgado, um choro soluçante. Silêncio. Morre-se quando nasce e morre quando se deixa. Pouco escolhia, nada sabia, além do nome de cada filha. Nada lembrava, pouco respondia. Dentro dos próprios braços, perdia-se na solidão. Na escuridão encontrou abrigo. Na companhia do cachorro preto, um amigo. Não pode negar que não viveu. Burrice, gritaria. Em retrospecto, sua imposição por tecidos vivos, coloridos era exigência demais. Aprendeu a agradecer diariamente, a rezar pelos ausentes, a esperar pelos presentes. Costurou uma vida que agora chegava ao fim. Aos doze a venda, aos oitenta, a sentença. Não viveu a história dos seus sonhos com o menino de olhos azuis, o mesmo que deixava a bola cair-se no seu quintal todos os dias. Nunca experimentara aquela primeira falta de ar, aquela sensação gelada no estômago. De gelado, restara agora seu corpo envolto na colcha que costurava desde o início.

[Poemas tirados de notícias de jornal] Hoje, há séculos

há séculos nos cercam
dentro de regras, moral, ética
há séculos não nos pertencemos
terceirizamos e agradecemos
éramos um fardo
saco pesado carregado por obrigação
diziam que lugar de mulher era em casa
de cabeça baixa, abnegação
depois de séculos, o mundo muda
ainda nos dizem o que fazer
o que vestir, o que escrever
hoje a mulher transmuda
pari o próprio mundo
planta a própria semente
amadurece o próprio fruto
colhe-se por inteira
existe ainda quem nos rotule
quem nos aponte direções e caminhos
mas do nosso jardim já cuidamos
há séculos,
desde que nos cercaram.

[Poemas tirados de notícias de jornal] Morte feliz

a morte feliz
(dá pra acreditar?)
ganhou novos ares
a manchete de jornal
o desalento
a mulher morta
a desumanização
nem sequer disfarçaram,
comemoraram
com satisfação
eram duas vidas por uma
a chamada na tv
as letras garrafais
estamparam o sentimento corriqueiro
o valor da mulher
vale menos que a própria
salva-se quem puder
agarra-se aos céus, a reza
sustenta-se teses absurdas
tudo pela morte, feliz
os valores, crenças
ética, a moral
pó de uma estrutura implodida

[Poemas tirados de notícias de jornal] Era amor, ele disse

lindo é o amor

aquele do outro por outrem

e não daquele que nunca falam

sobre você mesmo

sobre esse

nem pensar

Alto lá!

o que se sente

o que se vê

o que se dá é única e

exclusivamente

em função de alguém

mas, o amor

ah! sempre ele

sempre será lindo

mesmo quando

deitada na cama

sorriso molhado nos olhos

dentro de si, gotas de alguém

mãos trêmulas

ameaças à vista

grita em sussurro

reza sabendo que não será atendida

o socorro nunca chega

silencia

sitiada

perdida

vendida

“o amor nosso é lindo”, ele disse sufocando seu pescoço

Já passou do meio-dia

A ideia era acordar cedo e começar o dia. A lista interminável de tarefas para executar era extensa. Compras, almoço, e-mails, escrever, pesquisar, ler alguns textos aleatórios, entregar o trabalho que estava quase finalizado. De início, tudo correu dentro da normalidade. Levantou, tomou banho, café, colocou a roupa de trabalho.

Sentou à frente do computador.

Abriu a lista de prioridades para aquele momento.

A mesa parecia semi-bagunçada. Quem mexeu nela ontem à noite? Eu deixei ela já no jeito, disse, como se conversasse com alguém. Algumas canetas encontravam-se jogadas em cima de uma folha rabiscada, lápis de cor, elásticos e réguas fora do lugar. Analisando os traços dos desenhos sabia que era do filho caçula. Se fosse a menina, teria casinha, sol e jardim. Arrumou as canetas, trocando as tampas trocadas pelas certas, separou os papeis de rascunho, limpou as sobras de borracha.

Roupas para dobrar e guardar na cesta.

Lembrou que recolheu as roupas e esquecera delas ali. Domingo sempre foi um dia fora da curva. Tudo o que não faziam durante a semana, programavam para, de algum jeito, realizarem no domingo. Além das roupas esquecidas e da mesa semi-bagunçada, percebeu a estante de livros revirada.

Arrumar a estante sempre foi um dos seus passatempos prediletos. Folheava cada livro, lia algumas anotações, separava as releituras, encontrava joias escondidas que talvez nunca leria. Acompanhada de uma caneca de café recém-passado, deixou o celular ao lado Philip Glass tocando. Nem muito alto, nem muito baixo. Era exatamente o volume que gostava de ouvir “Mad Rush”. Separou Dorian Gray, O Morro dos Ventos Uivantes, alguns livros infanto-juvenis, dois técnicos. O café, a música, o ar-condicionado, o quarto. Era tudo o que preenchia sua alma. Tudo o que trazia felicidade.

As pilhas de livros acumulavam-se. Alinhou um a um. Depois, colocou-os na estante. Por gênero, separou dos que mais gostaria de ler aos que não teria mais vontade alguma de tocar. Posso doar também, falou em voz alta.

Encheu outra caneca de café e, na volta, trouxe uma sacola grande. As roupas permaneciam no sofá de dois lugares e o computador ligado. Na tela, a lista de tarefas do dia.

Correu para o computador e viu a hora. Três horas passaram desde que acordou e planejou o dia.

Livros, roupas e mesa.

Em pouco tempo, as três tarefas foram finalizadas. Sentou novamente à frente do computador.

E-mails.

Spam, boletos, um orçamento, a dieta nova para a semana. Uma resposta que aguardava à dias.

Buscou o celular pela mesa e ouviu a música que era já parte do ambiente. Ao pegá-lo no chão, viu as mensagens recebidas no Whatsapp.

Na tela do computador, os e-mails iam acumulando. Cinco novas mensagens recebidas, enquanto perdeu-se nas mensagens do grupo da pós-graduação, da academia e das amigas. Viu as fotos do carnaval, da festa que não foi porque decidiu em cima da hora que era hora de ir para um bloco de rua com as crianças. Separou as fotos que mais gostou e começou a enviar para sua mãe. A avó, orgulhosa, respondia em áudio, que estava na rua mas que os netos estão lindos! E ainda cobrou uma promessa antiga. Quando vocês virão me visitar? Já faz tanto tempo!

Apressou em finalizar aquela conversa pois sabia qual seria o destino.

Foco!
Foco!
Foco!

Vinte e cinco novas mensagens.

Já passou do meio-dia, gritou olhando o relógio na parede. E eu ainda nem sei o que fazer para almoçar, disse lamentando.

Já passou do meio-dia. O sol bate integralmente na janela, iluminando o quarto por completo. Olhando para a rua, sentou e colocou os pés na mesa.

A música ainda tocava.

Talvez seja hora de um café fresco.

Eu e Susan Sontag

Era para ser apenas uns dias de descanso.

Uma semana para arejar a mente, refrescar as ideias e priorizar os pensamentos.

No entanto, os dias viraram semanas e as semanas, meses.

Uma sensação gostosa me dizia que não era necessário nadar contra a maré.

Até que um belo dia me dei conta de que me sentia bem em não atualizar o blog.

As amarras das obrigações foram afrouxadas, a obrigação deixou de ser um peso e finalmente consegui desfrutar de um belo período de fazer vários nada.

Passei as semanas cuidando da saúde, da mente, da família e amigos, que por um período de certa nebulosidade na minha vida, foram deixados de lado. Foquei minha energia no que me fazia bem, no que me dava alegria e me fazia levantar todos os dias com o sorriso no rosto. O resultado disso foi um crescimento interior absoluto e grandioso. (Tá certo que Twitter e Instagram foram constantemente atualizados, confesso.)

Viajei, perdi peso, operei o nariz, cortei o cabelo, doei roupas, comprei novas, resgatei amizades, desfiz amizades, recebi visitas lindas, fiz novos amigos, participei de oficinas literárias, participei de uma corrida de rua, experimentei comidas diferentes, reli livros, li novos e antigos autores, conheci novas culturas, cuidei do coraçãozinho, deixei ser cuidada, me importei com as pessoas a minha volta, ouvi, falei, senti, vivi.

No fundo, enumerando todas as atividades, até então pensava ter apenas sobrevivido aos dias. Imaginei durante cada 24 horas que aqueles breves momentos eram somente um sopro, um suspiro da vida na minha direção.

Foi difícil entender o recado.


Num desses dias de deleite, achei no tablet o “Diários 1: 1947 – 1963”, da Susan Sontag. Já havia escutado o nome, algumas críticas, algumas opiniões pessoais à respeito do trabalho da Susan, porém, a curiosidade nunca batera a minha porta. Até que durante a leitura do calhamaço (e maravilhoso!) “O conde de Monte Cristo”, abri o arquivo do “Diários”.


O início do “Diários” data 1947. Susan tinha, na época, 15 anos.

15 anos e logo no início ela manda isso:

“As ideias perturbam a regularidade da vida.

… É a humilhação com cada lapso verbal, noites insones consumidas ensaiando a conversa do dia seguinte, e torturando a si mesma por causa da conversa do dia anterior… uma cabeça abaixada entre as próprias mãos… é “meu deus, meu deus”… (em minúscula, é claro, pois não existe deus nenhum.)”

“A única coisa em que consigo pensar é na mamãe, como ela é bonita, que pele lisa ela tem, como me ama. Como ficou abalada quando chorou noite dessas – ela não queria que papai, que estava no outro quarto, ouvisse, e o barulho de cada onda de lágrima era igual a um soluço gigantesco -, como as pessoas são covardes para se envolver, ou melhor, para se deixar passivamente envolver, por convenção, em relacionamentos estéreis – que vida podre, sombria, infeliz levam elas…”

“Diários” foi uma surpresa deliciosa de descobrir. Ler os pensamentos, ideias, inseguranças e medos da Susan Sontag me devolveu uma força bruta que nos últimos meses acreditei perdida. Suas idiossincrasia, que muitas vezes, em um espaço de poucas páginas, eram contestadas sem a menor vergonha. No entanto, ao final do volume 1, Susan nos mostra seu amadurecimento. Sobre a adolescência, a entrada na vida adulta, a vida de casada, o nascimento do filho, o reconhecimento da sua homossexualidade. E principalmente, claro, o que mais chamou minha atenção: sua descoberta como escritora.

“Escrevo para definir a mim mesma – um ato de autocriação – parte do processo de tornar-se – Num diálogo comigo mesma, com escritores que admiro, vivos e mortos, com leitores ideias…
Porque me dá prazer (uma “atividade”)
Não tenho certeza do propósito a que minha obra serve
Salvação pessoal – Cartas a um jovem poeta, de Rilke (Livrão, por sinal!)

“Para escrever, é preciso permitir-se ser a pessoa que você não quer ser (entre todas as pessoas que você é)”


“Ficar magra: mudança de identidade
Celebramos nossa mudança de caráter alternando nossa aparência pessoal.”

Esse pensamento!

Decidi, durante esse retiro de mim mesma, que não falaria mais sobre um possível processo de mudança na minha vida.

Se precisamos falar é porque ainda não entendemos a mudança. Ela ainda permanece na superfície e dificilmente se revelará profunda.

A parte externa, a parte em que Susan destaca no pensamento acima, é minha única alteração externa que foi capaz de chamar a atenção. Afinal, perdi 26kg.

Mas o que mora dentro, o que adormece e acorda diariamente martelando na minha mente, esses pequenos progressos foram construídos (e algumas coisas ainda estão no início) desde a base.

Basicamente, joguei tudo fora.

Não deixei um único resquício de meu eu antigo.

Comecei a pesar prós e contras, certas verdades e possíveis mentiras que insistimos em contar para nós mesmos são desconstruídas a todo momento…

Enfim…

Mudanças garantidas são internalizadas. Pouco falamos a respeito e quando se torna necessário, mostramos na prática o processo.


“Eu gosto de pessoas que exteriorizam seus sentimentos.”

“Essa covardia, ignorância, em face dos meus próprios sentimentos é o motivo por que entrego aqueles a quem amo, verbalmente, a outros quando me recuso a exprimir meus sentimentos para eles.”

“O problema das emoções é essencialmente um problema de escoamento de esgoto.”

“Duas necessidades fundamentais em guerra dentro de mim:
necessidade da aprovação alheia
temos dos outros”

Olha!

A mulher dispara um pensamento atrás do outros sobre emoções e sentimentos. Cada palavra que formava uma frase que se transformava em ideia me deixou inquieta. Nos mostrar para os outros através dos sentimentos e emoções nos levará ao caminho da vulnerabilidade. Acabaremos mostrando mais do que gostaríamos. E quem, em sã consciência, opta por se mostrar carente, triste, deprimido, frustrado? Quem, na mais viva vida, quer pedir ajuda, pedir arrego?

Quem fala abertamente do que sente é verdadeiramente feliz.


E finalmente,
“O tempo de escrever para entreter outras pessoas terminou. Não escrevo para entreter os outros, nem a mim mesma.”

Se recomendo a leitura dos “Diários” da Susan Sontag?

Sim, recomendo.

Foi o melhor livro da minha vida?

Não, não foi. Ele somente chegou na hora certa.

Foto: Movie Mezzanine

A vida é engraçada

É engraçado como ultimamente minha vida anda tão engraçada.

As coincidências (que costumo afirmar que não existe), as ironias (que eu mesmo aponto), os “eu não te disse” (que insistem em ser jogado na minha cara).

Todos esses três elementos pautaram minha vida nesses últimos anos. E durante todo esse tempo eu os neguei.

Sempre caminhei com minhas próprias pernas nas estradas que pensava ser as que me levariam ao lugar onde queria chegar. Muitas vezes neguei socorro, pois tinha plena consciência de que sabia exatamente o que estava fazendo. Tinha tanta consciência dos meus passos que sentia que viver o presente era aquilo. Sentir as pedras no asfalto, o calor, as pessoas que trombava nas calçadas, os desconhecidos que tornaram-se amigos e os amigos que viraram estranhos. Tudo isso que relatei agora já escrevi aqui no blog. Vários posts sobre se perder de si, de se encontrar, dos tombos, dos seguir em frente…

Porém, é engraçado como as coisas são.

Escrevi tudo o que tinha dentro de mim. Esgotei partes que pensava ter superado. Esvaziei todo o conteúdo que transbordava. Pensava, inocente, que ao tomar a atitude de deixar pra trás o que me segurou por tanto tempo no mesmo lugar, daria espaço para coisas novas que me levariam a alcançar novos horizontes.

Pois então, livre por dentro, por fora fiquei paralisada. Me vi parada na entrada de um grande labirinto com inúmeras possibilidades, caminhos, sentimentos, sensações, sonhos. Mas somente uma saída. Não via que para chegar nessa única saída, poderia me perder novamente por outros caminhos. Ou pelos mesmos lugares escuros que por outrora vaguei.

Ironia ou não, voltei para o mesmo lugar de antes. Não cheguei a levar um tombo, daqueles que destroem a autoestima e te tira toda a força de viver. Compreendi apenas que meu caminho é longo, muito longo pela frente.

E neste exato momento, ouço aquela voz amiga falando “eu não te disse.”

A Ilha

Tinha tanta coisa dentro de mim que não percebi quando tudo foi bloqueado. A mão dupla congestionada e a via de mão única fechada. No famoso corre-corre do dia, na tarefas que obrigatoriamente temos que cumprir, nas convenções sociais das quais não conseguimos escapar. Então, as coisas perderam o sentido. Funcionava de forma mecânica. Minhas ações não condiziam com o que pensava. Era como se outra Camila passasse a morar dentro de mim. Assim, esse outro eu fixou residência permanente. E é por isso que digo que não há muito tempo, resolvi colocar pra fora tudo o que me entupia.

Vivemos todos em nossas próprias ilhas.

Já falaram sobre isso. Mas isso agora não vem ao caso.

Somos pequenos organismos complexos em que o acesso se torna restrito quando detectamos uma ameaça latente à nossa vida. Podemos ser um pedaço de terra inabitável, ou um amontoado de pequenas terras. Podemos vir a ser uma ilha festeira ou uma ilha destinada ao estudo de cobras venenosas. Até mesmo uma ilha onde existam pessoas vivendo harmoniosamente felizes.

Gosto de pensar em seres humanos como ilhas. Aprecio ainda mais àqueles cujo acesso seja impossível de transpassar. O ato de se perder em uma pessoa, analisando movimentos, olhares, ações é uma atividade que requer esforço e paciência. Ver o que cada um pensa e como age. Analisar gestos, medir palavras, atentar-se ao movimento da respiração no peito. Até o mais simples olhar. Por mais que a grande maioria ostente em fazer parte do “todo mundo”. Em uma determinada idade ou fase, desejamos isso. Não adianta negar. Até que – cedo ou tarde – você percebe que o “todo mundo” não cabe dentro de você. A sua identidade é a sua ilha.

Eu não sou uma ilha paradisíaca nem uma ilha caribenha. Posso ser uma ilha destinada ao estudo, mas não tenho dentro de mim (pelo menos não sinto que tenha) pensamentos venenosos e tento ao máximo, viver em harmonia com o que me cerca. Seja a natureza ou o próprio ser humano. (Confesso que com esta última espécie, minhas dificuldades vão além do imaginado :D)

Quando decidi que era hora de colocar tudo pra fora, sabia desde o início, que não poderia ser algo superficial. Entendi que me afogaria algumas vezes, que perderia os sentidos em outras e que inclusive precisaria morrer para renascer. O que eu não sabia era que esse processo, além de não ter volta, não resultaria em um retorno imediato aos meus anseios. Foi quando acordei e percebi que minhas respostas estavam a todo tempo na minha frente. Bem na ponta do meu nariz.

Viver de dentro pra fora e, de vez em quando, apreciando a beirada da ilha, é o que me move. Por vezes, me perco em planos mirabolantes para um futuro distante. Outras tantas, exijo de mim viver o minuto presente. Caminho de ponta a ponta dentro de minha ilha. Ando gostando do que tô encontrando. Uma parada e análise demorada ou um breve aceno. Uma xícara de café ou um bate-papo rápido no portão. O que ainda não compreendo, demoro. O que já vivi, uma passada rápida.

Quero viver na minha ilha, ou ser uma, porquê não? Isolada ou super habitada vai depender de como quero viver. Dificuldade no acesso ou aberto ao público. Ainda não sei.

Meu desejo é que todos possam viver em suas ilhas. Da forma que quiser. Ou ser uma ilha, quem sabe? Esse último acho mais difícil e quem conseguiu, transcendeu.

Enfim…

Que sejamos um pequeno organismo capazes de vivermos bem dentro de si e que carreguemos para fora apenas uma beleza natural. Antes de sairmos da ilha, precisamos entender o que acontece dentro dela.