Já passou do meio-dia

A ideia era acordar cedo e começar o dia. A lista interminável de tarefas para executar era extensa. Compras, almoço, e-mails, escrever, pesquisar, ler alguns textos aleatórios, entregar o trabalho que estava quase finalizado. De início, tudo correu dentro da normalidade. Levantou, tomou banho, café, colocou a roupa de trabalho.

Sentou à frente do computador.

Abriu a lista de prioridades para aquele momento.

A mesa parecia semi-bagunçada. Quem mexeu nela ontem à noite? Eu deixei ela já no jeito, disse, como se conversasse com alguém. Algumas canetas encontravam-se jogadas em cima de uma folha rabiscada, lápis de cor, elásticos e réguas fora do lugar. Analisando os traços dos desenhos sabia que era do filho caçula. Se fosse a menina, teria casinha, sol e jardim. Arrumou as canetas, trocando as tampas trocadas pelas certas, separou os papeis de rascunho, limpou as sobras de borracha.

Roupas para dobrar e guardar na cesta.

Lembrou que recolheu as roupas e esquecera delas ali. Domingo sempre foi um dia fora da curva. Tudo o que não faziam durante a semana, programavam para, de algum jeito, realizarem no domingo. Além das roupas esquecidas e da mesa semi-bagunçada, percebeu a estante de livros revirada.

Arrumar a estante sempre foi um dos seus passatempos prediletos. Folheava cada livro, lia algumas anotações, separava as releituras, encontrava joias escondidas que talvez nunca leria. Acompanhada de uma caneca de café recém-passado, deixou o celular ao lado Philip Glass tocando. Nem muito alto, nem muito baixo. Era exatamente o volume que gostava de ouvir “Mad Rush”. Separou Dorian Gray, O Morro dos Ventos Uivantes, alguns livros infanto-juvenis, dois técnicos. O café, a música, o ar-condicionado, o quarto. Era tudo o que preenchia sua alma. Tudo o que trazia felicidade.

As pilhas de livros acumulavam-se. Alinhou um a um. Depois, colocou-os na estante. Por gênero, separou dos que mais gostaria de ler aos que não teria mais vontade alguma de tocar. Posso doar também, falou em voz alta.

Encheu outra caneca de café e, na volta, trouxe uma sacola grande. As roupas permaneciam no sofá de dois lugares e o computador ligado. Na tela, a lista de tarefas do dia.

Correu para o computador e viu a hora. Três horas passaram desde que acordou e planejou o dia.

Livros, roupas e mesa.

Em pouco tempo, as três tarefas foram finalizadas. Sentou novamente à frente do computador.

E-mails.

Spam, boletos, um orçamento, a dieta nova para a semana. Uma resposta que aguardava à dias.

Buscou o celular pela mesa e ouviu a música que era já parte do ambiente. Ao pegá-lo no chão, viu as mensagens recebidas no Whatsapp.

Na tela do computador, os e-mails iam acumulando. Cinco novas mensagens recebidas, enquanto perdeu-se nas mensagens do grupo da pós-graduação, da academia e das amigas. Viu as fotos do carnaval, da festa que não foi porque decidiu em cima da hora que era hora de ir para um bloco de rua com as crianças. Separou as fotos que mais gostou e começou a enviar para sua mãe. A avó, orgulhosa, respondia em áudio, que estava na rua mas que os netos estão lindos! E ainda cobrou uma promessa antiga. Quando vocês virão me visitar? Já faz tanto tempo!

Apressou em finalizar aquela conversa pois sabia qual seria o destino.

Foco!
Foco!
Foco!

Vinte e cinco novas mensagens.

Já passou do meio-dia, gritou olhando o relógio na parede. E eu ainda nem sei o que fazer para almoçar, disse lamentando.

Já passou do meio-dia. O sol bate integralmente na janela, iluminando o quarto por completo. Olhando para a rua, sentou e colocou os pés na mesa.

A música ainda tocava.

Talvez seja hora de um café fresco.

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Eu e Susan Sontag

Era para ser apenas uns dias de descanso.

Uma semana para arejar a mente, refrescar as ideias e priorizar os pensamentos.

No entanto, os dias viraram semanas e as semanas, meses.

Uma sensação gostosa me dizia que não era necessário nadar contra a maré.

Até que um belo dia me dei conta de que me sentia bem em não atualizar o blog.

As amarras das obrigações foram afrouxadas, a obrigação deixou de ser um peso e finalmente consegui desfrutar de um belo período de fazer vários nada.

Passei as semanas cuidando da saúde, da mente, da família e amigos, que por um período de certa nebulosidade na minha vida, foram deixados de lado. Foquei minha energia no que me fazia bem, no que me dava alegria e me fazia levantar todos os dias com o sorriso no rosto. O resultado disso foi um crescimento interior absoluto e grandioso. (Tá certo que Twitter e Instagram foram constantemente atualizados, confesso.)

Viajei, perdi peso, operei o nariz, cortei o cabelo, doei roupas, comprei novas, resgatei amizades, desfiz amizades, recebi visitas lindas, fiz novos amigos, participei de oficinas literárias, participei de uma corrida de rua, experimentei comidas diferentes, reli livros, li novos e antigos autores, conheci novas culturas, cuidei do coraçãozinho, deixei ser cuidada, me importei com as pessoas a minha volta, ouvi, falei, senti, vivi.

No fundo, enumerando todas as atividades, até então pensava ter apenas sobrevivido aos dias. Imaginei durante cada 24 horas que aqueles breves momentos eram somente um sopro, um suspiro da vida na minha direção.

Foi difícil entender o recado.


Num desses dias de deleite, achei no tablet o “Diários 1: 1947 – 1963”, da Susan Sontag. Já havia escutado o nome, algumas críticas, algumas opiniões pessoais à respeito do trabalho da Susan, porém, a curiosidade nunca batera a minha porta. Até que durante a leitura do calhamaço (e maravilhoso!) “O conde de Monte Cristo”, abri o arquivo do “Diários”.


O início do “Diários” data 1947. Susan tinha, na época, 15 anos.

15 anos e logo no início ela manda isso:

“As ideias perturbam a regularidade da vida.

… É a humilhação com cada lapso verbal, noites insones consumidas ensaiando a conversa do dia seguinte, e torturando a si mesma por causa da conversa do dia anterior… uma cabeça abaixada entre as próprias mãos… é “meu deus, meu deus”… (em minúscula, é claro, pois não existe deus nenhum.)”

“A única coisa em que consigo pensar é na mamãe, como ela é bonita, que pele lisa ela tem, como me ama. Como ficou abalada quando chorou noite dessas – ela não queria que papai, que estava no outro quarto, ouvisse, e o barulho de cada onda de lágrima era igual a um soluço gigantesco -, como as pessoas são covardes para se envolver, ou melhor, para se deixar passivamente envolver, por convenção, em relacionamentos estéreis – que vida podre, sombria, infeliz levam elas…”

“Diários” foi uma surpresa deliciosa de descobrir. Ler os pensamentos, ideias, inseguranças e medos da Susan Sontag me devolveu uma força bruta que nos últimos meses acreditei perdida. Suas idiossincrasia, que muitas vezes, em um espaço de poucas páginas, eram contestadas sem a menor vergonha. No entanto, ao final do volume 1, Susan nos mostra seu amadurecimento. Sobre a adolescência, a entrada na vida adulta, a vida de casada, o nascimento do filho, o reconhecimento da sua homossexualidade. E principalmente, claro, o que mais chamou minha atenção: sua descoberta como escritora.

“Escrevo para definir a mim mesma – um ato de autocriação – parte do processo de tornar-se – Num diálogo comigo mesma, com escritores que admiro, vivos e mortos, com leitores ideias…
Porque me dá prazer (uma “atividade”)
Não tenho certeza do propósito a que minha obra serve
Salvação pessoal – Cartas a um jovem poeta, de Rilke (Livrão, por sinal!)

“Para escrever, é preciso permitir-se ser a pessoa que você não quer ser (entre todas as pessoas que você é)”


“Ficar magra: mudança de identidade
Celebramos nossa mudança de caráter alternando nossa aparência pessoal.”

Esse pensamento!

Decidi, durante esse retiro de mim mesma, que não falaria mais sobre um possível processo de mudança na minha vida.

Se precisamos falar é porque ainda não entendemos a mudança. Ela ainda permanece na superfície e dificilmente se revelará profunda.

A parte externa, a parte em que Susan destaca no pensamento acima, é minha única alteração externa que foi capaz de chamar a atenção. Afinal, perdi 26kg.

Mas o que mora dentro, o que adormece e acorda diariamente martelando na minha mente, esses pequenos progressos foram construídos (e algumas coisas ainda estão no início) desde a base.

Basicamente, joguei tudo fora.

Não deixei um único resquício de meu eu antigo.

Comecei a pesar prós e contras, certas verdades e possíveis mentiras que insistimos em contar para nós mesmos são desconstruídas a todo momento…

Enfim…

Mudanças garantidas são internalizadas. Pouco falamos a respeito e quando se torna necessário, mostramos na prática o processo.


“Eu gosto de pessoas que exteriorizam seus sentimentos.”

“Essa covardia, ignorância, em face dos meus próprios sentimentos é o motivo por que entrego aqueles a quem amo, verbalmente, a outros quando me recuso a exprimir meus sentimentos para eles.”

“O problema das emoções é essencialmente um problema de escoamento de esgoto.”

“Duas necessidades fundamentais em guerra dentro de mim:
necessidade da aprovação alheia
temos dos outros”

Olha!

A mulher dispara um pensamento atrás do outros sobre emoções e sentimentos. Cada palavra que formava uma frase que se transformava em ideia me deixou inquieta. Nos mostrar para os outros através dos sentimentos e emoções nos levará ao caminho da vulnerabilidade. Acabaremos mostrando mais do que gostaríamos. E quem, em sã consciência, opta por se mostrar carente, triste, deprimido, frustrado? Quem, na mais viva vida, quer pedir ajuda, pedir arrego?

Quem fala abertamente do que sente é verdadeiramente feliz.


E finalmente,
“O tempo de escrever para entreter outras pessoas terminou. Não escrevo para entreter os outros, nem a mim mesma.”

Se recomendo a leitura dos “Diários” da Susan Sontag?

Sim, recomendo.

Foi o melhor livro da minha vida?

Não, não foi. Ele somente chegou na hora certa.

Foto: Movie Mezzanine

A vida é engraçada

É engraçado como ultimamente minha vida anda tão engraçada.

As coincidências (que costumo afirmar que não existe), as ironias (que eu mesmo aponto), os “eu não te disse” (que insistem em ser jogado na minha cara).

Todos esses três elementos pautaram minha vida nesses últimos anos. E durante todo esse tempo eu os neguei.

Sempre caminhei com minhas próprias pernas nas estradas que pensava ser as que me levariam ao lugar onde queria chegar. Muitas vezes neguei socorro, pois tinha plena consciência de que sabia exatamente o que estava fazendo. Tinha tanta consciência dos meus passos que sentia que viver o presente era aquilo. Sentir as pedras no asfalto, o calor, as pessoas que trombava nas calçadas, os desconhecidos que tornaram-se amigos e os amigos que viraram estranhos. Tudo isso que relatei agora já escrevi aqui no blog. Vários posts sobre se perder de si, de se encontrar, dos tombos, dos seguir em frente…

Porém, é engraçado como as coisas são.

Escrevi tudo o que tinha dentro de mim. Esgotei partes que pensava ter superado. Esvaziei todo o conteúdo que transbordava. Pensava, inocente, que ao tomar a atitude de deixar pra trás o que me segurou por tanto tempo no mesmo lugar, daria espaço para coisas novas que me levariam a alcançar novos horizontes.

Pois então, livre por dentro, por fora fiquei paralisada. Me vi parada na entrada de um grande labirinto com inúmeras possibilidades, caminhos, sentimentos, sensações, sonhos. Mas somente uma saída. Não via que para chegar nessa única saída, poderia me perder novamente por outros caminhos. Ou pelos mesmos lugares escuros que por outrora vaguei.

Ironia ou não, voltei para o mesmo lugar de antes. Não cheguei a levar um tombo, daqueles que destroem a autoestima e te tira toda a força de viver. Compreendi apenas que meu caminho é longo, muito longo pela frente.

E neste exato momento, ouço aquela voz amiga falando “eu não te disse.”

A Ilha

Tinha tanta coisa dentro de mim que não percebi quando tudo foi bloqueado. A mão dupla congestionada e a via de mão única fechada. No famoso corre-corre do dia, na tarefas que obrigatoriamente temos que cumprir, nas convenções sociais das quais não conseguimos escapar. Então, as coisas perderam o sentido. Funcionava de forma mecânica. Minhas ações não condiziam com o que pensava. Era como se outra Camila passasse a morar dentro de mim. Assim, esse outro eu fixou residência permanente. E é por isso que digo que não há muito tempo, resolvi colocar pra fora tudo o que me entupia.

Vivemos todos em nossas próprias ilhas.

Já falaram sobre isso. Mas isso agora não vem ao caso.

Somos pequenos organismos complexos em que o acesso se torna restrito quando detectamos uma ameaça latente à nossa vida. Podemos ser um pedaço de terra inabitável, ou um amontoado de pequenas terras. Podemos vir a ser uma ilha festeira ou uma ilha destinada ao estudo de cobras venenosas. Até mesmo uma ilha onde existam pessoas vivendo harmoniosamente felizes.

Gosto de pensar em seres humanos como ilhas. Aprecio ainda mais àqueles cujo acesso seja impossível de transpassar. O ato de se perder em uma pessoa, analisando movimentos, olhares, ações é uma atividade que requer esforço e paciência. Ver o que cada um pensa e como age. Analisar gestos, medir palavras, atentar-se ao movimento da respiração no peito. Até o mais simples olhar. Por mais que a grande maioria ostente em fazer parte do “todo mundo”. Em uma determinada idade ou fase, desejamos isso. Não adianta negar. Até que – cedo ou tarde – você percebe que o “todo mundo” não cabe dentro de você. A sua identidade é a sua ilha.

Eu não sou uma ilha paradisíaca nem uma ilha caribenha. Posso ser uma ilha destinada ao estudo, mas não tenho dentro de mim (pelo menos não sinto que tenha) pensamentos venenosos e tento ao máximo, viver em harmonia com o que me cerca. Seja a natureza ou o próprio ser humano. (Confesso que com esta última espécie, minhas dificuldades vão além do imaginado :D)

Quando decidi que era hora de colocar tudo pra fora, sabia desde o início, que não poderia ser algo superficial. Entendi que me afogaria algumas vezes, que perderia os sentidos em outras e que inclusive precisaria morrer para renascer. O que eu não sabia era que esse processo, além de não ter volta, não resultaria em um retorno imediato aos meus anseios. Foi quando acordei e percebi que minhas respostas estavam a todo tempo na minha frente. Bem na ponta do meu nariz.

Viver de dentro pra fora e, de vez em quando, apreciando a beirada da ilha, é o que me move. Por vezes, me perco em planos mirabolantes para um futuro distante. Outras tantas, exijo de mim viver o minuto presente. Caminho de ponta a ponta dentro de minha ilha. Ando gostando do que tô encontrando. Uma parada e análise demorada ou um breve aceno. Uma xícara de café ou um bate-papo rápido no portão. O que ainda não compreendo, demoro. O que já vivi, uma passada rápida.

Quero viver na minha ilha, ou ser uma, porquê não? Isolada ou super habitada vai depender de como quero viver. Dificuldade no acesso ou aberto ao público. Ainda não sei.

Meu desejo é que todos possam viver em suas ilhas. Da forma que quiser. Ou ser uma ilha, quem sabe? Esse último acho mais difícil e quem conseguiu, transcendeu.

Enfim…

Que sejamos um pequeno organismo capazes de vivermos bem dentro de si e que carreguemos para fora apenas uma beleza natural. Antes de sairmos da ilha, precisamos entender o que acontece dentro dela.

Permanência

A vida é uma coisa esquisita. Também é um filme de comédia premiadíssimo. Junte agora o esquisito com comédia e é provável que você já saiba o resultado.

A vida nos faz de idiota dia após dia, noite após noite. Ou seja, todos os dias ela pregará peças das mais absurdas em você.

Ao mesmo tempo que ela dá, ela tira. Você ajuda e se ferra. Anima-se com uma nova pessoa. Ela vai lá e te pisa. Você tenta uma coisa diferente e o resultado é desastroso. Até as lágrimas, aquelas amigas para todas as horas, bem no momento que seriam convidadas de honra para a festa, desapareceram.

Enfim. O jeito é seguir. Sempre em frente.

Indo, andando, caminhando, tropeçando, caindo, levantando, rastejando. E no meio de todos os gerúndios, falta apenas uma única ação. Aquela que vai endireitar seu corpo, levantar sua cabeça, enxugar as poucas lágrimas. Aquela que vai te fazer levantar todos os dias da cama. Pode ser também aquela que vai te dar uma nova razão para existir.

No meu caso, o verbo em questão é “Permanecer”.

Dentre todas as coisas idiotas que fiz durante minha vida, a única que se manteve intacta foi permanecer. Dentre tempestades e tsunamis, permaneci. Dentre verões escaldantes e felicidade exacerbada, permaneci. Cai e permaneci. Levantei e olha lá. Permaneci. Todos nós que escolhemos viver de maneira, digamos assim, profunda, um dia já tentamos não permanecer. Nesse momento, o desejo é apenas ser sugado pela massa. Desejamos ser mais um no meio da multidão. O tal do “ser o ator principal da própria vida” é apenas uma expressão ridícula. Passamos até a levantar a hipótese de sermos meros coadjuvantes. Penso que assim, a vida torna-se mais amena. Sem tantos saltos e sustos. Porém, é a sua permanência. Sua vida. Ver através do olhar do outro. Não. Definitivamente não.

Se eu pudesse definir a vida em uma palavra, permanência seria a escolhida. Tudo o que fazemos, o que não fazemos, permanece. O que falamos, o que não falamos também. O grito. O silêncio. A ação. A inércia. Ação e reação.

Dessa vez tentarei olhar de maneira mais acurada. Entrelinhas e o não dito.

Voltei.

E mais uma vez, permaneço.

Sem forma

Por muitos anos eu pensei que me conhecia.

Pensei que era forte e determinada. Que nada me atingiria e nada me derrubava.

Pensei até que fosse aquela pessoa que todos a minha volta achava que eu era.

Mas a grande verdade é que eu não era ninguém.

Ainda não sou ninguém.

A busca incessante por uma identidade que defina quem sou é na verdade, uma caminhada. Uma longa caminhada sem destino definido.

Quando criança, ouvia meus pais falarem que quando adulta, eu seria alguém. Que quando fosse mais velha, saberia mais das coisas.

Assim, a adolescência chegou e as dúvidas triplicaram. Com elas, vieram também a culpa, o medo, o arrependimento. A depressão e a ansiedade correram e completaram o combo.

Aos 20 anos, eu era um zumbi.

Andei, andei, andei e terminei numa rua sem saída. Um lugar escuro, frio e sem portas. Tudo o que fiz foi seguir o protocolo. Terminei o ensino médico e já no outro dia entrei na Universidade e saindo dela continuei estudando. Trabalhei em diversos lugares, com pessoas das mais variadas nos mais diferentes campos. Público, privado, ong´s. Com gente rica e com pessoas limitadas financeiramente. Com doutores e phd´s até com iletrados e semianalfabetos.

No final dos 20, a vida cobrou a conta.

Todo o pensamento de que eu sabia de tudo veio por água baixo. E com ele, veio o baque de que talvez eu tenha vivido de maneira errada minha vida.

Errado no sentido de seguir cartilhas, enredos e histórias já contadas.

Errado também da maneira que visualizei. Ao eu ver, bastava apenas enfrentar os obstáculos que apareceriam. Feito isso, tudo ficaria para trás e os passos continuariam sendo dados.

Lógico que não foi isso quea aconteceu. Um pequenos detalhe passou despercebido.

De nada vai adiantar se você não se aceitar exatamente como é. Esse reflexo que você vê no espelho. Precisamente esse. Não a sombra que as pessoas conhecem, nem a que tem um rótulo estabelecido em um cartão de visita.

O espelho foi o meu maior e melhor pesadelo e sonho. No dia em que me olhei de verdade, pude ser o que ninguém enxergava. Nem eu mesmo sabia que aquela pessoa existia. Uma pessoa com defeitos, falhas, sonhos e fracassos. Uma pessoa insegura que batalha diariamente. Uma pessoa medrosa que anda por lugares escuros e perigosos.

Somos um grão de areia no deserto.

Somos uma gota no oceano.

Somos 1 pessoa no meio de 7 bilhões de outras pessoas.

Podemos ser exatamente quem gostaríamos de ser.

Um grão de areia, uma gota no oceano, uma estrela do céu.

Podemos ser advogada, médica, escritora, pintora.

O que não podemos é ser uma certeza. Certezas são coisas fechadas. Certezas são exatas. O que humanas em nada tem.

Somos humanos. Seres adaptáveis, seres não padronizados. Cabemos em um modelo e no outro segundo, num outro.

E aí é que mora a grande beleza. A coragem de ser exatamente quem queremos ser.

Capenga, sem forma e com conteúdo em eterna atualização.

Encontre-se

Quando tudo vira de pernas pro ar, cabe a cada um seguir o seu caminho.

Nem sempre o lado da multidão é o lado certo. E, ás vezes, quem pensa o contrário também não detém a verdade absoluta. Vivemos momentos estranhos mundo afora. Um lado quer reaver seu poder. O outro, com tantas críticas, luta para prevalecer. Alguns outros querem de volta a moralidade. Um grupo, que sempre foi oprimido, grita por respeito.

Há quem diga que vivemos novos tempos. Há quem diga que tudo isso sempre existiu.

E no meio desse fuzuê, precisamos continuar seguindo em frente.

O meu destino, o seu destino.

Adaptamos o que temos e construímos novos alicerces. Ganhamos e perdemos diariamente. Colhemos e plantamos novas sementes.

Muitas vezes precisamos correr. Por vezes, torna-se necessário voltarmos algumas casas.

Em momentos de total descontrole, é necessário uma pausa.

Pausa.

Encontrar-se no emaranhado de fios é a conexão que precisamos fazer para seguirmos nossos caminhos. Tudo o que você precisa fazer é encontrar uma ponta solta que representa o que você quer. Pode ser uma ideia, um livro, uma música, uma pessoa. O que for. Será nessa ponta solta do emaranhado do mundo que você responderá suas questões.

O que quero dizer é basicamente isso:

“E quando você menos espera a vida te vira do avesso, e você descobre que o avesso é o seu lado certo.”

Caio Fernando Abreu

Por isso, encontre o seu avesso. Ou a sua ponta solta.

Diário de Escrita #1

Basicamente, a ideia inicial é esta:


“O mundo é um lugar infinito. Claro que temos limitações geográficas, políticas nacionais e culturas próprias. Falo das situações do cotidiano. Das inúmeras idas e vindas do universo. Da palavra dita ao segredo guardado. Das vontades mantidas reféns aos desejos repentinos saciados. Tudo é tão claro que, por vezes, duvidamos das nossas ações e reações. Fechamos os olhos para sentir e os abrimos para o óbvio. Por isso que os esfregamos. Precisamos das certezas que nunca serão certas. E quanto mais eu penso no que aconteceu, menos dúvidas tenho. Nunca vamos saber o que a vida nos reserva. Os planos feitos e refeitos à exaustão, as tentativas de burlar o que a vida vai nos entregar é apenas o primeiro dos muitos erros que cometemos. Durante anos não entendemos o único aviso que pisca na nossa frente diariamente. O alerta é simples.

Tudo pode acontecer.

Um dia, todos seremos pegos de surpresa.

Pensando bem, vou reformular.

Tudo vai acontecer. Queira você acreditar ou não.”


O que achou?

Tô no caminho certo?

Deixe seu comentário no box aqui embaixo.

Cá entre nós

Fiquei últimos esses dias OFF. Da vida, de mim, dos meus problemas, das minhas decisões, das dores, das alegrias. Enfim. Do máximo que consegui. Me deixei levar pelo emaranhado de pensamentos que insistente invadem minha mente.

Sabe aquele jogo de ligar os pontos e que no final os traços formam um desenho de uma árvore, um rosto famoso ou uma casa? Meus pensamentos, a cada ponto ligado, veio uma resposta. A cada forma, uma nova pergunta.

Porém, a brincadeira, quando visualizada do alto, ganhou novas formas.

Vi a vida por outra perspectiva.

Sai de mim para poder me encontrar.

No meio do caminho, vi que não tinha mais volta. E cá entre nós, foi maravilhoso. A sensação de libertação, de leveza chegou. Com ela, outra avalanche de dúvidas. Mas as dúvidas são da novidade. Da nova vida.

Brincar de ligar os pontos é um ótimo exercício para colocar tudo em ordem.

Peguei uma atitude antiga e analisei. Vi que não tinha mais sentido a permanência.

Peguei um pensamento antigo e analisei. Guardei, pois, num futuro próximo, pode ser interessante.

Agarrei uma crença e vi até onde ela me permitia chegar. Era uma das boas. Guardei.

Depois de tudo, apenas me permiti. Fui ali viver a vida um pouco.

Sem amarras, sem questionamentos. Somente vivi.

O momento em que senti o ar entrando e saindo das minhas narinas. O vento que bateu no meu rosto e levou meus cachos com ele. O gargalhas das crianças brincando. O arrastar dos chinelos na calçada. O vôo rasante do pássaro de alguma espécie que não consegui identificar no jardim da praia.

Tem muita coisa ainda que preciso viver.

No chopp sagrado do domingo com as amigas chegamos nesse assunto.

Nos cobramos incansavelmente. Somos nossos próprios vilões. Tiramos de nós mesmos as chances que desejamos criar. Antes mesmo de nascerem, já lançamos as priores críticas.

E, pela primeira vez assumi esse meu lado.

Desde muito nova que sou minha pior crítica. Pouco ou nada me incentivei. Talvez, por isso, que deixei passar tanto tempo para conseguir me soltar.

O lado bom foi que o dia de jogar tudo para o alto e apenas ser/viver chegou.

Joguei tudo e hoje consigo sentir o ar puro.

Esses dias OFF são bons para isso.

Apenas ser.

Apenas viver.

Sem cobranças.

Sem neuras.

É como dizem…

Depois da tempestade, a calmaria.

Sem vozes nem gritos.

Apenas o som do vento e uma leve chuva batem na janela.

Essa é a minha trilha sonora do momento.

Após dias combatendo o pior mundo dos pensamentos brutos e negativos, minha mente serenou.

E eu que, ansiosa em ajudar, falava para os mais próximos para manter a calma, para respirar fundo, para analisar cada pensamento e tirar alguma lição de cada um, fiz tudo ao contrário.

O desespero chegou violento e sem um pingo de educação. Em vão, tentava manter-me sã. Em vão.

Foi quando joguei tudo pro alto. Tudo mesmo.

E quando as coisas caíram, comecei do início.

Peguei apenas o que era necessário. Nada de mais, nem nada de menos. Apenas o que era para ser usado no momento.

Mentes bagunçadas sabe como é. Queremos o tudo e o nada. Para agora e para depois. Brigamos e pacificamos. O passo dado é o mesmo que retorna.

Enfim. Este post será curtinho.

Apenas para comunicar que é provável alguns sumiços esporádicos.

A nova ideia pra uma nova história chegou.

Aparentemente é assim que funciona minha mente. Prevendo que a ideia é interessante, ela me coloca na parede. É assim que vai ser. Vamos sacudir sua vida pra ver se você aguenta. E a ideia é essa.

Personagens, enredo, narrativa, plots, tudo. Depois que a tempestada cessou, as coisas apareceram.

Cada personagem saiu devagar, o enredo veio tímido, os plots vieram em blocos e a narrativa ainda demorou. Porém, no último segundo, antes de fechar a porta, ela entrou. Garantiu seu lugar na primeira fila.

É bem provável que comece um outro “Diário de Escrita“.

Quanto ao primeiro “diário”, o material foi enviado para dois concursos. Terei alguma notícia deles em junho. Um no início e outro no final.

É torcer e continuar trabalhando.

Torçam por mim!